sexta-feira, 22 de julho de 2011

Verdadeiro Tesouro


Às vezes quando saio prá apartar os bois, a idade me leva, sem querer a recordar aquelas léguas tão compridas, que até o homem que as percorreu, me parece de mentira.
Havia tão pouco tempo prá contar e tanta coisa para dizer, tanta energia prá se gastar, tanta montanha prá cruzar e tanta terra prá plantar. Havia tanta saudade prá cantar, e tanta noite prá chorar.


Olhava as minhas mãos e pensava que , às vezes, pareciam não ser as minhas, olhava prá minha mulher, enquanto durmia, e pensava que também ela não era minha.
Era do tempo, como tudo, da manhã que vinha silenciosa, com um copo de café, um pedaço de pão, e a chuva, que às vezes, lá fora chicoteava o curral.


A lenda falava sobre um tesouro, desses que estão enterrados com o tempo, do local certo, só se sabia o que se fala por aí nas rodas de amigos, sentados ao redor das fogueiras à noite. E que nas noites bem escuras brilhava embaixo de um certo ipé.
Eu queria achar aquele tesouro, não prá me fazer rico, mas era prá não me sentir tão por baixo. Prá não me sentir, algúm dia, velho e desprezado, prá não ter que alugar o coração, prá fazer um rancho, comprar uma vaca leitera e um boi.


Assim, numa noite estrelada, creio que era dia de São João, saí prá procurar o tal tesouro do qual tanto se falava. Levei apenas um bastão prá ir tateando o caminho e uma vela que o vento insistia em apagar.
Sou cristão e tenho minha crença, mas dessa vez não levei nem o terço, minha consciência estava turvada e esqueci até os conselhos do vigário.


Eu acredito que vale contar essa experência. Achei a luz que brilhava, lá embaixo daquele ipé amarelo, e comecei a cavar e cavar a noite inteira e nada achei, a não ser pedras e mais pedras.
Rasguei as mãos cavando e chorei de raiva, raiva e impotência, e então notei que das minhas mãos minava sangue vermelho, vermelho e fresco, uma mistura de sangue, terra e suor.


Há tesouro maior que as mãos? Me pergunto, com elas me agarrei a vida um dia, com elas a ganhei e hoje a mantenho e assim amanhã e amanhã e a cada dia que passa. Comprei um cavalo e uma vaca, uma vaca linda que agora tem uma cria. Assim como minha filha que agora está criando um guri prá continuar a vida.


Às vezes quando faço carinho no meu neto, olho as minhas mãos e a idade me leva a recordar o valioso tesouro que achei. Tesouro este que cavando e sangrando, Deus me ensinou a agredecer por cada segundo de fôlego com o qual Ele me abençoa.

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